sexta-feira, junho 08, 2007

Um dia (a)normal...

Hoje as malas pesavam pela Sá da Bandeira a baixo sempre 30min antes do autocarro para casa. Levanto a cabeça das pedras da calçada (desgastadas pelos saltos) e vejo uma cena que me libertou um sorriso, como um arrepio cor-de-rosa pelo corpo.

Eram 30segundos de dois namorados a discutir.

Gesticulavam habilmente no primeiro compasso da sua discussão de uma relação envernizada de fresco de um primeiro amor.
O relógio deu os 30segundos iniciais e a rapariga desiste e…
silêncio.
Olha para o rapaz, ainda a meio metro de distância a olhar para o chão e fixa o seu olhar nele. Ela olhava tristemente como quem pede alguma coisa em troca de ternura. O seu corpo era desengonçado mas os cabelos pediam a festa de uma mão que se perde nos seus caracóis presos e pretos.
Continua a olhar seriamente para o rapaz com borbulhas na face e este devolve-lhe, finalmente, o olhar penetrante, convencido pelos caracóis.
Ela aproxima-se e corajosamente...
beija-o com todos e sem nenhum medo.

Deram o seu passo para o conforto, para o alívio.

Continuei a andar e a olhar para trás embuida nesta cena de filme dos anos 50 com o James Dean e o beijo continuava sem prognósticos do seu final.
Ele tinha-a abraçado para se sentirem mais e colocava a mão, já segura, na sua face.

Continuei a andar só e despedi-me mentalmente daquele casal, que agora estavam sós e que nem o fumo dos autocarros, as buzinas dos carros ou, até mesmo, os olhares e os sussurros das velhas na paragem, ouviam ou sentiam.

Continuei a andar e lembrei-me de ti. E se tivesses agora comigo? Será que repararias na cena do filme? Será que preenchias a tua espinha dorsal com um sorriso não possível de ser contido, como eu? Eu acho que não… Acho que continuavas a andar e quando eu te falasse, dirias uma piada seca e intelectual. Eu responderia “Não sejas parvo!” como se cantasse o “Não venhas tarde!” e não nos teríamos encontrado naquele espaço intermédio do sorriso.

Fura_bOlos

6 comentários:

Walter disse...

Sabes no fundo todos esperamos que o amor seja reparar nas mesmas coisas, gostar das mesmas coisas, fazer as mesmas coisas...mas não, o amor nunca foi isso, nunca sera isso...porque isso é tornar a outra pessoa em nós mesmos!Lembrei-me duma musica cantada pelo rui veloso (meu primo :P) que diz "muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa"...isto sim, é o amor para mim!
gostei mm mt deste post!bjs

Anónimo disse...

Atenta e expectante...reflexiva e profunda...sempre!Gostei deste post cheio de histórias e observações, indicações e indirectas, para mim, para ti, para ele...Reflexo de visões, compaixões e ainda mais...interligações...da minha vida, da tua, da ciganita..
Amor uma relação de extremos ou de complementaridade...à que pensar..para depois agir!Continua...nós agradecemos..Beijão da Pseudovizinha "do lado"

Ilka disse...

Estava com saudades destes posts :)

Hans Norhenberg Zwert disse...

Sim, Já faltava mesmo! 5*

Continua, as histórias que crias com as tuas observações quotidianas são excelentes e já n lia nada tao brilhante desde "Coco Rosie - Casa das Artes - V.N. Famalicão" - Julho06 :)

... qto à "Memória Inventada" (do outro dia) passei por lá, já esperava grandes textos mas a qualidade da sua criatividade é fantástica.

[1Bjo e até qq dia]

Mãozinhas disse...

Mais do que pensar"Será que ele seria assim, será que agiria assim, será que se sentiria assim...?", convém talvez perceber a razão pela qual estas dúvidas e incertezas nos passam pela mente e pelo corpo...O que há em mim que me faz sentir este desconforto...utilizando um termo com o qual fui "inundada" durante estes dias será um impasse relacional?Ou então é só mesmo o amor e a sua natureza que nos obriga por vezes a equilibrar na corda bamba, porque também só assim conseguimos fazer grandes acrobacias...

Jinho

Anelar

Fábio Teixeira disse...

Ooh... :P