segunda-feira, junho 30, 2014

segunda-feira, maio 12, 2014

Esqueci-te

Haverá o dia em que não estarei mais presente. Esqueci-te. Não serás para mim mais que um fragmento da minha vida. 
Um fragmento que não foste capaz de preservar, um fragmento que amarrotaste e atiraste para o lixo. E talvez nesse teu momento de fraqueza em que olhas e não vês, ouves mas não escutas entendas o que não quiseste amar. 
Vais sentir saudades das palavras lindas, mas os meus lábios estarão selados, não pelo ódio, não pela raiva, mas pelos lábios daquela que virá a seguir a ti.

André Rebelo

quarta-feira, março 26, 2014

Entorpecimento

Calcorrear ruas em levamentos de calçada,
lamentos de um trajeto que já não o é.
Num pranto calado envolvo-o em memoriais
de exíguos vazios que mais não fazem que
toldar a razão, aqui e agora.

Palavras doces que embalsamo,
Para não nos esquecer.
Não me esquecer.

O chão destroça-se em pedaços de algodão
prontos a voar quando terminarem
as palavras brandas enfrascadas.

Moleza do ser não combina
com este caminho, nu de pavimento.
De terra batida, descalço, entregue a si próprio.

Cadinhos de imperfeição
quando o vocábulo se solta.
Quero ir com ele, com colarinhos das amarras que me prendem a ti.

[Ou o que ainda há por fazer.]

domingo, março 02, 2014

A Misantropia Tem Hora Marcada

Um suspiro de alívio, não demasiado fugaz, escapa-se assim que entra em casa. Tateia os objetos com uma familiaridade impossível lá fora. 

 Roda a saia quando é preciso, face às agruras que a picam no cinzento das horas em corrupio.  Mas em casa - seja ela onde, como e em quem for - gosta de a despir. É prazenteiro sentir o rosto da sua própria pele e envolver-se no seu aroma, e, enfim, encontrar-se novamente: panorâmica de um processo sempre inacabado.

Em desilusões de relações desejosas de  falhar, reenquadra a esperança num porvir autêntico.  E no lastro fresco deste sentimento, satisfaz todos os músculos do seu corpo, dilacerando-se em evasões de tensão. Esvazia a mente. Limpa o coração.

Da janela, observa o gotejar de mais uma noite. Mergulha em si e volta à tona para respirar. Afinal, amanhã é um novo dia. 

domingo, dezembro 08, 2013

A morte não tem poesia.

Muitas vezes pensava no dia da sua morte.

Imaginava-se a conduzir numa estrada sem carros, acompanhada pelas vozes de uma rádio regional, numa dessas noites insignificantes pela ausência de lua.

Um rato passa à frente do carro, olhos fechados, pé no travão, guinada para esquerda.

PUM!

Sem direito a lua nem a airbag.


O Rádio, o único vivo da história, tosse, no frio e no silêncio que toda a morte merece, o Hit Me Baby One More Time da Britney Spears.  

segunda-feira, agosto 26, 2013

Férias 2013


Guimarães
Foz do Arelho
Óbidos

Óbidos

Óbidos
Óbidos
Bombarral

Bombarral

Bombarral

Bombarral

Mafra

Mafra



Sintra

segunda-feira, maio 06, 2013

O Frade vê o peregrino

Ao longe, o cantar de um grilo ritmava os movimentos do peregrino contra um corpo nu.

Gri, gri, gri, grigrigri...

O som  dos dois corpos, um contra o outro e contra o chão, crescia num tom cada vez mais nítido e intenso até se escutar tão perto como se viesse de dentro.

- Isso magoa - diz a mulher.
- Vais ver que passa rápido - responde o peregrino, sem perder o compasso.

O grilo emudece num GRI(to) de prazer e o peregrino, suado, aperta as calças, levantando-se.

As pernas tísicas da mulher tremiam soltas na pedra como um esqueleto separado em articulações:
Santa Luzia Milagrosa, é a sua filha!


quarta-feira, dezembro 05, 2012

O quarto de um solteiro


O quarto de um solteiro raramente tem as persianas da janela totalmente abertas. Entram vagos raios de luz, iluminando fulgurantemente os restos de comida que , por comodidade e desleixo afectivo, ficaram espalhados pelos móveis.
A cama, quase sempre desfeita, denuncia uma solidão que corresponde à desarrumação somente de um dos lados da cama. A solidão ganha género, sobretudo o feminino, se junto ao travesseiro encontramos um pacotinho de lenços, ao qual é endereçada aquela monótona desculpa “Estou constipada”. Esta constipação nunca passa. Seja Verão, seja Inverno, esta constipação é alimentada por um vírus que se aloja num coração partido. Enquanto persistir o seu habitat, este dissemina-se, e os lenços usados acumulam-se ao lado da cama, como pequenas compressas que tentam estancar a tristeza destilada daquele coração desgraçadamente ferido.
No quarto de um solteiro solitário, a roupa amontoada na cadeira, ganha forma, e, enfim, vida. Constitui já o amigo imaginário, o companheiro das horas vagas, que são as menos possíveis, visto que um solteiro evita o seu quarto, como quem foge do espelho.
Os livros estão dispostos casualmente e de forma corrida, pelo quarto em geral. A separa-los encontram-se pequenos pedaços de comida, restos de jantares solitários acompanhados de um qualquer ecrã. Estas obras, folhetins ou revistas, para além da roupa suja, são os verdadeiros camaradas do solitário solteiro. Enquanto se deita no seu catre, despojado de amor e carinho, mas repleto de um conforto com travo de azedume, pode deleitar-se com a vivência de novos mundos que não o seu. O leitor pensará que assim o é em todas as idades e condições para todos aqueles que gostam de mergulhar num bom livro. Mas no caso do solteiro, a situação toma contornos especiais.
Salvo algumas felizes exceções, o solteiro não quer viver a situação atual, e, simultaneamente, não sair da zona de conforto, visto que as mazelas sentimentais costumeiras teimam em não fechar. Assim sendo, viver um romance arrebatador, ainda que trágico, ali mesmo deitado na sua cama, constitui o último reduto de felicidade que um pode ter. É por isto, que os quartos dos solteiros interessantes podem constituir mini bibliotecas.
Não devemos esquecer aquela célebre citação “If you go home with somebody, and they don´t have books, don´t fuck´em!”, que sub-repticiamente confere alguma sensualidade aos nossos solteiros, e uma resignada esperança na promessa de amor real que um livro traz.
No dormitório de um solteiro é comum encontrar notas, bilhetes, presentes, pastilhas mastigadas, qualquer coisa que revele os seus antigos amores, e os recorda que afinal um dia foram amados, tema que agora constitui unicamente um terreno árido, e, ao mesmo tempo, pantanoso.
O estado do quarto de um solteiro só muda quando, em noites pontuais, alguém interessado e interessante passa por lá. De fé renovada, lá se arruma todo o espaço, lá se escondem todos os vestígios de uma baixa auto estima, e de recordações do passado que possam comprometer a continuidade da aventura do presente.
A noite acaba. A companhia sai, e a desilusão do telefonema não recebido no dia seguinte atrai todas as características primordiais do quarto. É tempo de fechar totalmente a janela. Faz frio lá fora.