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domingo, janeiro 25, 2015

Ficções da Realidade

A arte de amar não deveria subjugar-se a perguntas. Ou assim muitos dizem. Alguma coisa entre o acaso e um festim de hormonas melhor explicaria o sucedido.
Há muito tempo ouvi falar de uma experiência em que um homem e uma mulher heterossexuais foram induzidos a apaixonarem-se em laboratório.  A situação consistia em que fizessem perguntas um ao outro, as quais, de acordo com o protocolo, fomentariam a intimidade. Além disso, era-lhes pedido que se olhassem fixamente e em silêncio durante alguns minutos. Passados 6 meses estavam casados.
Embora não tenha feito um follow-up da história para saber se tinha o tão almejado final feliz, recordo-me que na altura, e no rescaldo de um coração partido, achei que havia esperança. Afinal podia apaixonar-me por quem quisesse. O último reduto da felicidade.
Confesso, sem vergonha de falar pela jovem dessa altura, que tentei replicar a experiência.  Era um colega de faculdade: giro, inteligente, interessante e com aquele ar desajeitado que me provoca insondáveis arrepios pelo corpo todo. Tentei a minha sorte naquele final de tarde. Segui parte do guião, com as perguntas chave que nos tornariam mais próximos, embora estivéssemos já à distância de um beijo. O que tínhamos em comum, o que gostava nele, bla bla bla. Depois lá chegou a parte do olhar silencioso. O verdadeiro terror não foi o que vi nele, mas o que ele podia ver em mim, como se me invadisse até ao fundo da minha alma. Beijamo-nos mais para abandonar aquele momento do que outra coisa. Apaixonamo-nos também . Não pelas perguntas que lhe fiz, mas porque o escolhi para fazer essas mesmas questões. O amor não chegou. Eramos demasiado novos e ávidos para nos aplicar-nos nesta disciplina.

Quando me lembro deste episódio, fica a parte boa. Não podemos escolher quem amamos, mas podemos fazer esse amor durar. Podemos escolher cultivá-lo e fazê-lo crescer. Como um jardim: colhemos os frutos, cheiramos as flores, e regozijamo-nos com a paisagem, mas nunca sabemos que flora e fauna por lá andam. As ervas daninhas aparecem sem hora marcada e nem sempre conseguimos cultivar o que queremos. Em suma, dá muito trabalho.
Mas quando nos sentamos neste jardim maravilhoso, estamos dispostos a fazer as perguntas. Não as do Dr. Aron, mas as nossas próprias perguntas, aquelas que nos levam para sítios onde muitas vezes temos medo de ir. Que põem à prova a nossa narrativa e a que contamos aos outros.
Depois de as fazermos, sabemos que estamos preparados para que o outro olhe para nós. Queremos ir com ele aos sítios onde pensamos que não queríamos ir. As perguntas anteriormente suspeitas fazem-nos querer ficar vulneráveis. 

terça-feira, dezembro 02, 2014

Forelsket

Duas histórias assíncronas que se cruzam na luz ténue de fim de dia.

Ela ajeita nervosamente a cabelo. Sabe de antemão o peso que as cores de outono têm sobre si e não quer causar má impressão. Conhece também de sobejo o que espera encontrar naquela estação: um verão vermelho em forma de romã.

Ele passa disperso na roda-viva do dia. Acha que tudo se compõe quando o frio congelar a razão. Dança sozinho ao recordar-se dos tempos felizes que hão de vir. No olhar cabe a imensidão do horizonte e no gesto leva uma ternura que se revela na perfeição com que pousa a mochila na casa onde quer ficar.

Descobrem-se na livraria que cruza a esquina. Naquela onde os livros são vidas, e as vidas não passam de histórias por contar. Ao longe, palavras novas cruzam-se em continentes frios.  Golfadas de vento aproximam-nos num espaço etéreo. Tocam-se na frieza incólume de um icebergue e com uma destreza extemporânea sabem que querem ficar ali.


segunda-feira, novembro 10, 2014

Breakup songs

Encostada à soleira da porta, a sua decisão dependia do índice de pluviosidade.
Quando parou de chover, quis ficar em casa. O sol brilhava mais ali.


6. Scott Walker | If you go away


5.Porta dos fundos | Essa é pra você


4. The Beatles | You´re gonna lose that girl



3. Françoise Hardy | Comment te dire adieu?



2. The Magnetic Fields | All my little words



1. Jeff Buckley | Lover, you´ve should come over


quarta-feira, março 26, 2014

Entorpecimento

Calcorrear ruas em levamentos de calçada,
lamentos de um trajeto que já não o é.
Num pranto calado envolvo-o em memoriais
de exíguos vazios que mais não fazem que
toldar a razão, aqui e agora.

Palavras doces que embalsamo,
Para não nos esquecer.
Não me esquecer.

O chão destroça-se em pedaços de algodão
prontos a voar quando terminarem
as palavras brandas enfrascadas.

Moleza do ser não combina
com este caminho, nu de pavimento.
De terra batida, descalço, entregue a si próprio.

Cadinhos de imperfeição
quando o vocábulo se solta.
Quero ir com ele, com colarinhos das amarras que me prendem a ti.

[Ou o que ainda há por fazer.]

domingo, março 02, 2014

A Misantropia Tem Hora Marcada

Um suspiro de alívio, não demasiado fugaz, escapa-se assim que entra em casa. Tateia os objetos com uma familiaridade impossível lá fora. 

 Roda a saia quando é preciso, face às agruras que a picam no cinzento das horas em corrupio.  Mas em casa - seja ela onde, como e em quem for - gosta de a despir. É prazenteiro sentir o rosto da sua própria pele e envolver-se no seu aroma, e, enfim, encontrar-se novamente: panorâmica de um processo sempre inacabado.

Em desilusões de relações desejosas de  falhar, reenquadra a esperança num porvir autêntico.  E no lastro fresco deste sentimento, satisfaz todos os músculos do seu corpo, dilacerando-se em evasões de tensão. Esvazia a mente. Limpa o coração.

Da janela, observa o gotejar de mais uma noite. Mergulha em si e volta à tona para respirar. Afinal, amanhã é um novo dia. 

quarta-feira, dezembro 05, 2012

O quarto de um solteiro


O quarto de um solteiro raramente tem as persianas da janela totalmente abertas. Entram vagos raios de luz, iluminando fulgurantemente os restos de comida que , por comodidade e desleixo afectivo, ficaram espalhados pelos móveis.
A cama, quase sempre desfeita, denuncia uma solidão que corresponde à desarrumação somente de um dos lados da cama. A solidão ganha género, sobretudo o feminino, se junto ao travesseiro encontramos um pacotinho de lenços, ao qual é endereçada aquela monótona desculpa “Estou constipada”. Esta constipação nunca passa. Seja Verão, seja Inverno, esta constipação é alimentada por um vírus que se aloja num coração partido. Enquanto persistir o seu habitat, este dissemina-se, e os lenços usados acumulam-se ao lado da cama, como pequenas compressas que tentam estancar a tristeza destilada daquele coração desgraçadamente ferido.
No quarto de um solteiro solitário, a roupa amontoada na cadeira, ganha forma, e, enfim, vida. Constitui já o amigo imaginário, o companheiro das horas vagas, que são as menos possíveis, visto que um solteiro evita o seu quarto, como quem foge do espelho.
Os livros estão dispostos casualmente e de forma corrida, pelo quarto em geral. A separa-los encontram-se pequenos pedaços de comida, restos de jantares solitários acompanhados de um qualquer ecrã. Estas obras, folhetins ou revistas, para além da roupa suja, são os verdadeiros camaradas do solitário solteiro. Enquanto se deita no seu catre, despojado de amor e carinho, mas repleto de um conforto com travo de azedume, pode deleitar-se com a vivência de novos mundos que não o seu. O leitor pensará que assim o é em todas as idades e condições para todos aqueles que gostam de mergulhar num bom livro. Mas no caso do solteiro, a situação toma contornos especiais.
Salvo algumas felizes exceções, o solteiro não quer viver a situação atual, e, simultaneamente, não sair da zona de conforto, visto que as mazelas sentimentais costumeiras teimam em não fechar. Assim sendo, viver um romance arrebatador, ainda que trágico, ali mesmo deitado na sua cama, constitui o último reduto de felicidade que um pode ter. É por isto, que os quartos dos solteiros interessantes podem constituir mini bibliotecas.
Não devemos esquecer aquela célebre citação “If you go home with somebody, and they don´t have books, don´t fuck´em!”, que sub-repticiamente confere alguma sensualidade aos nossos solteiros, e uma resignada esperança na promessa de amor real que um livro traz.
No dormitório de um solteiro é comum encontrar notas, bilhetes, presentes, pastilhas mastigadas, qualquer coisa que revele os seus antigos amores, e os recorda que afinal um dia foram amados, tema que agora constitui unicamente um terreno árido, e, ao mesmo tempo, pantanoso.
O estado do quarto de um solteiro só muda quando, em noites pontuais, alguém interessado e interessante passa por lá. De fé renovada, lá se arruma todo o espaço, lá se escondem todos os vestígios de uma baixa auto estima, e de recordações do passado que possam comprometer a continuidade da aventura do presente.
A noite acaba. A companhia sai, e a desilusão do telefonema não recebido no dia seguinte atrai todas as características primordiais do quarto. É tempo de fechar totalmente a janela. Faz frio lá fora.

sábado, agosto 18, 2012

História do Bailote



Existem dias em que a terra parece mais árida, mesmo aquela que antes foi um palco de campos verdejantes.
O homem que por ali vivia, nunca havia visto nada assim. Pensava: "Esta casa, que me abrigou e alimentou, definha, aqui mesmo nas minhas mãos. Não há peste a ser combatida, nem intempérie sanada pela esperança. Existe, só e apenas, um sólido e aterrador deserto. Estou morto."

sexta-feira, agosto 05, 2011

#12 Lying around

"Don't try to use me or slyly refuse me,
just win me or lose me,
it is this that the darkness is for"


quinta-feira, julho 21, 2011

Rider

Despertou vulcões e empenhou os seus bem mais preciosos quando jurou vencer todas as tempestades. Aves de rapina cruzavam os céus involucrado em nuvens e os seus pés, já calvos, teimavam em caminhar.

A boca estalava de sede e o coração latejava como se fosse o seu último suspiro. Abissais colinas despenhavam-se num oásis azul, fruto de sonhos invertidos em miragens.

Era uma caminhada lenta e dura, e, embora houvesse um destino, não havia o trajecto. Poucos eram os apeadeiros onde podia repousar e restabelecer, ainda que levemente, o seu espírito obstinado.

O desassossego instalava-se na medida de uma rebelião. Seguia a paisagem com a vivacidade de olhar que lhe era característica, mas a espera de encontrar o que procurava tornava todas as cores mais pálidas.

Sobre si caía o signo do querer, insaciável e impedioso. E seria com ele, despojada de qualquer bem supérfluo, que havia de cair nas graças do inusitado tempo, que tardava em chegar. O seu tempo.

quarta-feira, julho 06, 2011

Nuances tragico-cómicas desta vida

Sentia uma dormência que já lhe era familiar. Conhecia aquele nó na barriga, que se formava como prelúdio de uma sessão de choro convulsivo, à prova de qualquer pensamento positivo, que ficava imediatamente proibido de entrar.
Já devia domar aqueles impetuosos sentimentos que a moviam. Sim, eram as paixões a sua força motriz. Não se negava a ceder ou fazer qualquer coisa em nome desse sentimento, que já, por muitas vezes, havia revelado que se esfumava rapidamente. Como plano B, ficava à espera que o amor chegasse. No fundo, no fundo eram racionalizações, daquele tipo que se ouvem muito “a paixão não dura para sempre, mas o amor sim” ou “o amor é um sentimento mais maduro, fruto da evolução da relação” ou ainda “esta é uma má fase que vai passar”.
Quando efectivamente os dias passavam e ela os começava a contar, como se tivesse encerrada numa prisão, aí sim, percebia que algo estava mal, muito mal. Nessas alturas, ficava apavorada e negava a si mesma que ia perder este laço, mas uma ubiquidade de sentimentos, lá começava, de forma muito tímida, a fazer o luto daquilo que tinha sido uma esplendorosa expectativa de uma relação bem sucedida.
Já não conseguia manejar os sintomas físicos, perfeitamente visíveis e a prova concreta de que havia um problema. Náuseas, problemas respiratórios, dores no peito apetrechavam o festim com a que a ansiedade a presenteava.
Para além de tudo isto, a sua neurose, que se insuflava quase até explodir, dava lugar a um certo “chicotear mental” secundário. Ora bem, quando já estava perfeitamente triste e desiludida, mimoseava-se com pensamentos como “Que estupidez dar tanta a importância a isto. Sou uma gaja perfeitamente estúpida e ridícula com estas lamechices, quando podia aproveitar para começar já a fazer o scouting do mercado masculino.” Não é necessário dizer que isto não a ajudava, e era produto daqueles óculos escuros e pequeninos que havia colocado. Em tempos quis ser tão grandiosa como a Janis Joplin, mas esqueceu-se que isso tinha consequências, e, sobretudo, que não podem existir duas Janis Joplin.
Acabava esta telenovela sempre com aquele pensamento/frase cliché “o amor não é p´ra mim”.
Na verdade, ela só queria mesmo passar a vida numa cabana, à beira mar, a beber mojitos. Mas isto dos amores e desamores trocava-lhe as voltas, e acabava sempre numa tasca abafada, a beber aguardente.
Moral da história?
Não há.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

z O O m

Encontram-se pessoas e episódios fantásticos no nosso percurso diário. Basta estar atento.
Hoje,dei por mim a despertar do meu automatismo habitual, a caminho do trabalho. O culpado foi um senhor, um tanto extravagante ou caricato(como preferirem), que envergava um rádio na sua bicicleta. Este rádio estava sintonizado na TSF, e emitia isto:



Digo-vos, foi o melhor momento do meu dia.

domingo, dezembro 05, 2010

Como gosto dela, numa tarde de Domingo

A lassidão é melhor arma contra a luz do dia. Primeiro acumula-se na loiça suja e depois acaba por traduzir-se em números, na medida das horas em que se fica rebolar na cama. Invade os horários, metodicamente estabelecidos no dia anterior, no desespero de organizar o vazio que percorre os dias em fileira. Entreabre-se no guarda-roupa apinhado de roupa por arrumar e desce as escadas com o lixo que alguém se foi esquecendo de levar.
A preguiça…torna-se facilmente num bichinho de estimação: alimenta-se, cuida-se e apelida-se carinhosamente com o nosso nome próprio. Enrosca-se entre as nossas pernas, rumo à alma.
Manifesta-se num colectivo individual, entre todos os que de manhã apanham o transporte público, carregando uma mala, de 100kg em cada braço, de preguiça a florescer. No final do dia, voltam a casa já com autênticos jardins botânicos, repletos de plantas carnívoras que lhe comem todo o corpo, razão de desabafos “triste vida a minha”, “nunca mais é 6ªf”, que todos em coro poderiam originar qualquer fado amargurado.
Dizem por aí que a mais perigosa das preguiças é aquela que é bem aconchegada por uma boa refeição, e desprovida de qualquer esboço de preocupações. Ora assim está criado o contexto para que se anulem todas as forças motrizes que impulsionam um qualquer a dedicar-se a causas mais nobres, das quais não faz parte a nossa preguiça. A preguiça é vil e sabe bem. Surge a dúvida se estas características têm alguma relação causal, mas não é isso que importa, e com certeza muito menos à detentora das mesmas, a nossa lânguida e confortável preguiça.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Fábulas

Eram duas da manhã e rebolavam naquele quarto escuro, à procura dos corpos que não conseguiam encontrar. Haviam prometido um ao outro amar-se para toda a eternidade, mas a eternidade é um pedaço de nada, e como tal um vazio que sempre o será.

O desejo de encontrar um amor genuíno e incorruptível era o mais importante, mais ainda do que o outro era na verdade, do que tinha este para oferecer. O pacto comum com o sentimento imortal era, de facto, o que interessava naquele momento.

Foi por isso que, embora deitados na mesma cama, não conseguiam tocar-se no rosto dos lençóis, que cegavam a cada suspiro. Antes de chegarem a esta intermitência, havia sido já percorrido um longo caminho, o qual atravessaram sem sequer se aperceberem, de tão ofuscados que estavam com promessas avulsas de amor eterno.

No culminar de cada relação falhada, cada um deles havia prometido a si próprio que haveria de ser feliz, mas…feliz de uma felicidade imaculada, que reparasse todos os danos anteriores e todos os que ainda viriam.

Quando se encontraram, gerou-se um cadinho de perfeição. Amar-se-iam até que a noite deixasse de o ser, e se transformasse em aurora para sempre. Amar-se-iam até que transformassem o outro no seu continente, no seu lar. Amar-se-iam até se perderem no brilho do olhar emanado pelo verdadeiro coração apaixonado.

Mas o tempo deixou de ser tempo, e o espaço transfigurou-se por casualidades e desajustes. Deixaram-se enrolar pela maré de acontecimentos, e não construíram um dique suficientemente forte para contê-la. A promessa de amor eterno assegurava, pensavam eles, que nunca deixariam de se amar, independentemente de todos os esquecimentos, todas as inconsciência e descuidos, intransigências ou distâncias que os pudessem apartar.

Enganaram-se. A promessa de amor eterno não chega. Não é uma varinha mágica que congela corações, e que os faz deixar de sentir qualquer tipo de raiva ou tristeza. E certamente não é antídoto para aquilo que se vai esquecendo de mudar, ou não se quer mudar com o pretexto do esquecimento.

É por isto que, quase uma hora depois, ambos adormeceram, ainda sem se encontrar.

domingo, abril 04, 2010

Uma Santa Páscoa

E este ano, decidi substituir as vozes gregorianas pelos cânticos de um sitar..Que vos parece?

segunda-feira, março 15, 2010

#9 Lying around...

Minha mãe me deu ao mundo
De maneira singular
Me dizendo a sentença
Pra eu sempre pedir licença
Mas nunca deixar de entrar


*Tudo de Novo, Caetano Veloso

sábado, março 06, 2010

A Casa

Trovejavam veios luminosos lá fora, entre os estilhaços de vidro que protegiam a habitação do mau tempo…As gotas farejavam as frechas por onde se infiltrariam, para num colapso só, alagarem os alicerces simentados por tempos anedónicos. As telhas teclavam os dentes, numa sinfonia atónica, sem eira nem beiral por onde arrastar a água pendente da chuva.

Os móveis dançavam ao som de um boogie-woogie desconcertado, conduzido pelo ritmo ciclónico, que se confinavam à exiguidade do universo, preso ali mesmo no jardim maltratado.

Enquanto as cortinas se bamboleavam nos reflexos cinza da chuva que passava, rangiam as portas em cópulas apressadas pelo frio que vinha do final do corredor, onde a janela permanecia aberta..aberta..

Na cozinha, a mesa tinha restos de víveres ensopados pelas sombras cinzas emanadas pelas nuvens cabisbaixas, que tentavam entrar pelos vidros opacos. As facas ganhavam vida própria e cortavam estes pedaços de céu, para um banquete tardio que se havia de fazer, sempre que pingassem rios nilos nos confins daquele lar.

Subindo as escadas, encontravam-se os quartos com camas de odores a terra molhada, a amores devassos que se propagavam na enxurrada que os havia de levar até à cómoda, onde poderiam pentear os seus cabelos de cobre reluzente..

Finalmente, no sótão, reduto final da intempérie constante, podiam avistar-se os raios quentes de um sol que despontava a partir de quimeras isoladas, e que desatava todos os sonhos escritos naquelas sombras vagabundas…as sombras de uma casa.

sexta-feira, março 05, 2010

#8 Lying Around



"This was unlike the story

It was written to be
I was riding its back
When it used to ride me"

*Peach Plum Pear, Joanna Newsom