segunda-feira, agosto 26, 2013

Férias 2013


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Mafra

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segunda-feira, maio 06, 2013

O Frade vê o peregrino

Ao longe, o cantar de um grilo ritmava os movimentos do peregrino contra um corpo nu.

Gri, gri, gri, grigrigri...

O som  dos dois corpos, um contra o outro e contra o chão, crescia num tom cada vez mais nítido e intenso até se escutar tão perto como se viesse de dentro.

- Isso magoa - diz a mulher.
- Vais ver que passa rápido - responde o peregrino, sem perder o compasso.

O grilo emudece num GRI(to) de prazer e o peregrino, suado, aperta as calças, levantando-se.

As pernas tísicas da mulher tremiam soltas na pedra como um esqueleto separado em articulações:
Santa Luzia Milagrosa, é a sua filha!


quarta-feira, dezembro 05, 2012

O quarto de um solteiro


O quarto de um solteiro raramente tem as persianas da janela totalmente abertas. Entram vagos raios de luz, iluminando fulgurantemente os restos de comida que , por comodidade e desleixo afectivo, ficaram espalhados pelos móveis.
A cama, quase sempre desfeita, denuncia uma solidão que corresponde à desarrumação somente de um dos lados da cama. A solidão ganha género, sobretudo o feminino, se junto ao travesseiro encontramos um pacotinho de lenços, ao qual é endereçada aquela monótona desculpa “Estou constipada”. Esta constipação nunca passa. Seja Verão, seja Inverno, esta constipação é alimentada por um vírus que se aloja num coração partido. Enquanto persistir o seu habitat, este dissemina-se, e os lenços usados acumulam-se ao lado da cama, como pequenas compressas que tentam estancar a tristeza destilada daquele coração desgraçadamente ferido.
No quarto de um solteiro solitário, a roupa amontoada na cadeira, ganha forma, e, enfim, vida. Constitui já o amigo imaginário, o companheiro das horas vagas, que são as menos possíveis, visto que um solteiro evita o seu quarto, como quem foge do espelho.
Os livros estão dispostos casualmente e de forma corrida, pelo quarto em geral. A separa-los encontram-se pequenos pedaços de comida, restos de jantares solitários acompanhados de um qualquer ecrã. Estas obras, folhetins ou revistas, para além da roupa suja, são os verdadeiros camaradas do solitário solteiro. Enquanto se deita no seu catre, despojado de amor e carinho, mas repleto de um conforto com travo de azedume, pode deleitar-se com a vivência de novos mundos que não o seu. O leitor pensará que assim o é em todas as idades e condições para todos aqueles que gostam de mergulhar num bom livro. Mas no caso do solteiro, a situação toma contornos especiais.
Salvo algumas felizes exceções, o solteiro não quer viver a situação atual, e, simultaneamente, não sair da zona de conforto, visto que as mazelas sentimentais costumeiras teimam em não fechar. Assim sendo, viver um romance arrebatador, ainda que trágico, ali mesmo deitado na sua cama, constitui o último reduto de felicidade que um pode ter. É por isto, que os quartos dos solteiros interessantes podem constituir mini bibliotecas.
Não devemos esquecer aquela célebre citação “If you go home with somebody, and they don´t have books, don´t fuck´em!”, que sub-repticiamente confere alguma sensualidade aos nossos solteiros, e uma resignada esperança na promessa de amor real que um livro traz.
No dormitório de um solteiro é comum encontrar notas, bilhetes, presentes, pastilhas mastigadas, qualquer coisa que revele os seus antigos amores, e os recorda que afinal um dia foram amados, tema que agora constitui unicamente um terreno árido, e, ao mesmo tempo, pantanoso.
O estado do quarto de um solteiro só muda quando, em noites pontuais, alguém interessado e interessante passa por lá. De fé renovada, lá se arruma todo o espaço, lá se escondem todos os vestígios de uma baixa auto estima, e de recordações do passado que possam comprometer a continuidade da aventura do presente.
A noite acaba. A companhia sai, e a desilusão do telefonema não recebido no dia seguinte atrai todas as características primordiais do quarto. É tempo de fechar totalmente a janela. Faz frio lá fora.

sábado, agosto 18, 2012

História do Bailote



Existem dias em que a terra parece mais árida, mesmo aquela que antes foi um palco de campos verdejantes.
O homem que por ali vivia, nunca havia visto nada assim. Pensava: "Esta casa, que me abrigou e alimentou, definha, aqui mesmo nas minhas mãos. Não há peste a ser combatida, nem intempérie sanada pela esperança. Existe, só e apenas, um sólido e aterrador deserto. Estou morto."

terça-feira, julho 31, 2012

O Meu Calendário da Semana





31/07/2012 - terça-feira:
Cinema - "As flores da Guerra" 

01/08/2012 - quarta-feira:
Música - "Kim Gordan e Ikue Mori"

02/08/2012 - quinta-feira:
Teatro - "O Acidente"







*http://www.guimaraes2012.pt


:)

sexta-feira, junho 08, 2012

Sem nós (mulheres) o futuro do cromossoma coxo está comprometido...

"As coisas tornaram-se mais difíceis para os homens quando descobriram que eu (ADN - posterior ser), para viver, também preciso de mitocôndrias. Isso já se sabia, mas o que não se sabia é que as mitocôndrias são um ser distinto daquele que eu formo, com os seus próprios genes e uma reprodução diferente. São uma espécie de parasita assexuado mas, um parasita necessário que se infiltra nas células que eu formo e vive em simbiose com elas.
Agora, aqui vai a má notícia para os homens: quem transmite as mitocôndrias é, em exclusivo, o corpo da mulher. Elas infiltram-se nos óvulos e é apenas deste que transitam para o novo ser e para todas as células.
Este pormenor foi muito útil aos investigadores para tentarem descobrir quem são e de onde vieram as ancestrais progenitoras humanas. Mas também se ficou a saber que só elas, e nunca os homens, poderão dar origem, por si sós, a um corpo com a capacidade de sobreviver.
Ou seja: quando os jogos sexuais forem definitivamente proibidos e não restar senão a clonagem para a sobrevivência da espécie, só as mulheres poderão deixar descendentes. Um clone masculino, por si só, para além de necessitar de um útero para gerar um novo corpo também necessita das mitocôndrias que estão no óvulo feminino.
Ninguém sabe por que foi que este parasita assexuado escolheu a via matrilinear para se reproduzir. E o mais engraçado é que as mitocôndrias são a máquina energética de todas as células e de todos os corpos. Pois bem: a fonte de energia dos homens vem exclusivamente das suas mães. Isso já se adivinhava, mas a história das mitocôndrias, preto no branco, foi mais uma machadada para o futuro do cromossoma coxo. A breve prazo o XY pode bem ser descartável."

(in J.L. Pio Abreu.(2007) Quem nos faz como somos)

sexta-feira, agosto 05, 2011

#12 Lying around

"Don't try to use me or slyly refuse me,
just win me or lose me,
it is this that the darkness is for"


quinta-feira, julho 21, 2011

Rider

Despertou vulcões e empenhou os seus bem mais preciosos quando jurou vencer todas as tempestades. Aves de rapina cruzavam os céus involucrado em nuvens e os seus pés, já calvos, teimavam em caminhar.

A boca estalava de sede e o coração latejava como se fosse o seu último suspiro. Abissais colinas despenhavam-se num oásis azul, fruto de sonhos invertidos em miragens.

Era uma caminhada lenta e dura, e, embora houvesse um destino, não havia o trajecto. Poucos eram os apeadeiros onde podia repousar e restabelecer, ainda que levemente, o seu espírito obstinado.

O desassossego instalava-se na medida de uma rebelião. Seguia a paisagem com a vivacidade de olhar que lhe era característica, mas a espera de encontrar o que procurava tornava todas as cores mais pálidas.

Sobre si caía o signo do querer, insaciável e impedioso. E seria com ele, despojada de qualquer bem supérfluo, que havia de cair nas graças do inusitado tempo, que tardava em chegar. O seu tempo.

quarta-feira, julho 06, 2011

Nuances tragico-cómicas desta vida

Sentia uma dormência que já lhe era familiar. Conhecia aquele nó na barriga, que se formava como prelúdio de uma sessão de choro convulsivo, à prova de qualquer pensamento positivo, que ficava imediatamente proibido de entrar.
Já devia domar aqueles impetuosos sentimentos que a moviam. Sim, eram as paixões a sua força motriz. Não se negava a ceder ou fazer qualquer coisa em nome desse sentimento, que já, por muitas vezes, havia revelado que se esfumava rapidamente. Como plano B, ficava à espera que o amor chegasse. No fundo, no fundo eram racionalizações, daquele tipo que se ouvem muito “a paixão não dura para sempre, mas o amor sim” ou “o amor é um sentimento mais maduro, fruto da evolução da relação” ou ainda “esta é uma má fase que vai passar”.
Quando efectivamente os dias passavam e ela os começava a contar, como se tivesse encerrada numa prisão, aí sim, percebia que algo estava mal, muito mal. Nessas alturas, ficava apavorada e negava a si mesma que ia perder este laço, mas uma ubiquidade de sentimentos, lá começava, de forma muito tímida, a fazer o luto daquilo que tinha sido uma esplendorosa expectativa de uma relação bem sucedida.
Já não conseguia manejar os sintomas físicos, perfeitamente visíveis e a prova concreta de que havia um problema. Náuseas, problemas respiratórios, dores no peito apetrechavam o festim com a que a ansiedade a presenteava.
Para além de tudo isto, a sua neurose, que se insuflava quase até explodir, dava lugar a um certo “chicotear mental” secundário. Ora bem, quando já estava perfeitamente triste e desiludida, mimoseava-se com pensamentos como “Que estupidez dar tanta a importância a isto. Sou uma gaja perfeitamente estúpida e ridícula com estas lamechices, quando podia aproveitar para começar já a fazer o scouting do mercado masculino.” Não é necessário dizer que isto não a ajudava, e era produto daqueles óculos escuros e pequeninos que havia colocado. Em tempos quis ser tão grandiosa como a Janis Joplin, mas esqueceu-se que isso tinha consequências, e, sobretudo, que não podem existir duas Janis Joplin.
Acabava esta telenovela sempre com aquele pensamento/frase cliché “o amor não é p´ra mim”.
Na verdade, ela só queria mesmo passar a vida numa cabana, à beira mar, a beber mojitos. Mas isto dos amores e desamores trocava-lhe as voltas, e acabava sempre numa tasca abafada, a beber aguardente.
Moral da história?
Não há.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

z O O m

Encontram-se pessoas e episódios fantásticos no nosso percurso diário. Basta estar atento.
Hoje,dei por mim a despertar do meu automatismo habitual, a caminho do trabalho. O culpado foi um senhor, um tanto extravagante ou caricato(como preferirem), que envergava um rádio na sua bicicleta. Este rádio estava sintonizado na TSF, e emitia isto:



Digo-vos, foi o melhor momento do meu dia.

domingo, dezembro 05, 2010

Como gosto dela, numa tarde de Domingo

A lassidão é melhor arma contra a luz do dia. Primeiro acumula-se na loiça suja e depois acaba por traduzir-se em números, na medida das horas em que se fica rebolar na cama. Invade os horários, metodicamente estabelecidos no dia anterior, no desespero de organizar o vazio que percorre os dias em fileira. Entreabre-se no guarda-roupa apinhado de roupa por arrumar e desce as escadas com o lixo que alguém se foi esquecendo de levar.
A preguiça…torna-se facilmente num bichinho de estimação: alimenta-se, cuida-se e apelida-se carinhosamente com o nosso nome próprio. Enrosca-se entre as nossas pernas, rumo à alma.
Manifesta-se num colectivo individual, entre todos os que de manhã apanham o transporte público, carregando uma mala, de 100kg em cada braço, de preguiça a florescer. No final do dia, voltam a casa já com autênticos jardins botânicos, repletos de plantas carnívoras que lhe comem todo o corpo, razão de desabafos “triste vida a minha”, “nunca mais é 6ªf”, que todos em coro poderiam originar qualquer fado amargurado.
Dizem por aí que a mais perigosa das preguiças é aquela que é bem aconchegada por uma boa refeição, e desprovida de qualquer esboço de preocupações. Ora assim está criado o contexto para que se anulem todas as forças motrizes que impulsionam um qualquer a dedicar-se a causas mais nobres, das quais não faz parte a nossa preguiça. A preguiça é vil e sabe bem. Surge a dúvida se estas características têm alguma relação causal, mas não é isso que importa, e com certeza muito menos à detentora das mesmas, a nossa lânguida e confortável preguiça.

terça-feira, outubro 05, 2010

Os Viajantes e o Urso

Um dia dois viajantes deram de cara com um urso...
O primeiro salvou-se escalando uma árvore, mas o outro, sabendo que não ia conseguir vencer sozinho o urso, deitou-se no chão e fingiu-se de morto.
O urso aproximou-me dele e começou a cheirar a sua orelha. Mas, convencido de que estava morto, foi embora.
O amigo começou a descer da árvore e perguntou:
- O que é que o urso estava a sussurrar no teu ouvido?
- Ora, ele só me disse para pensar duas vezes antes de sair por aí com pessoas que abandonam os amigos na hora do perigo.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Fábulas

Eram duas da manhã e rebolavam naquele quarto escuro, à procura dos corpos que não conseguiam encontrar. Haviam prometido um ao outro amar-se para toda a eternidade, mas a eternidade é um pedaço de nada, e como tal um vazio que sempre o será.

O desejo de encontrar um amor genuíno e incorruptível era o mais importante, mais ainda do que o outro era na verdade, do que tinha este para oferecer. O pacto comum com o sentimento imortal era, de facto, o que interessava naquele momento.

Foi por isso que, embora deitados na mesma cama, não conseguiam tocar-se no rosto dos lençóis, que cegavam a cada suspiro. Antes de chegarem a esta intermitência, havia sido já percorrido um longo caminho, o qual atravessaram sem sequer se aperceberem, de tão ofuscados que estavam com promessas avulsas de amor eterno.

No culminar de cada relação falhada, cada um deles havia prometido a si próprio que haveria de ser feliz, mas…feliz de uma felicidade imaculada, que reparasse todos os danos anteriores e todos os que ainda viriam.

Quando se encontraram, gerou-se um cadinho de perfeição. Amar-se-iam até que a noite deixasse de o ser, e se transformasse em aurora para sempre. Amar-se-iam até que transformassem o outro no seu continente, no seu lar. Amar-se-iam até se perderem no brilho do olhar emanado pelo verdadeiro coração apaixonado.

Mas o tempo deixou de ser tempo, e o espaço transfigurou-se por casualidades e desajustes. Deixaram-se enrolar pela maré de acontecimentos, e não construíram um dique suficientemente forte para contê-la. A promessa de amor eterno assegurava, pensavam eles, que nunca deixariam de se amar, independentemente de todos os esquecimentos, todas as inconsciência e descuidos, intransigências ou distâncias que os pudessem apartar.

Enganaram-se. A promessa de amor eterno não chega. Não é uma varinha mágica que congela corações, e que os faz deixar de sentir qualquer tipo de raiva ou tristeza. E certamente não é antídoto para aquilo que se vai esquecendo de mudar, ou não se quer mudar com o pretexto do esquecimento.

É por isto que, quase uma hora depois, ambos adormeceram, ainda sem se encontrar.