sexta-feira, agosto 05, 2011

#12 Lying around

"Don't try to use me or slyly refuse me,
just win me or lose me,
it is this that the darkness is for"


quinta-feira, julho 21, 2011

Rider

Despertou vulcões e empenhou os seus bem mais preciosos quando jurou vencer todas as tempestades. Aves de rapina cruzavam os céus involucrado em nuvens e os seus pés, já calvos, teimavam em caminhar.

A boca estalava de sede e o coração latejava como se fosse o seu último suspiro. Abissais colinas despenhavam-se num oásis azul, fruto de sonhos invertidos em miragens.

Era uma caminhada lenta e dura, e, embora houvesse um destino, não havia o trajecto. Poucos eram os apeadeiros onde podia repousar e restabelecer, ainda que levemente, o seu espírito obstinado.

O desassossego instalava-se na medida de uma rebelião. Seguia a paisagem com a vivacidade de olhar que lhe era característica, mas a espera de encontrar o que procurava tornava todas as cores mais pálidas.

Sobre si caía o signo do querer, insaciável e impedioso. E seria com ele, despojada de qualquer bem supérfluo, que havia de cair nas graças do inusitado tempo, que tardava em chegar. O seu tempo.

quarta-feira, julho 06, 2011

Nuances tragico-cómicas desta vida

Sentia uma dormência que já lhe era familiar. Conhecia aquele nó na barriga, que se formava como prelúdio de uma sessão de choro convulsivo, à prova de qualquer pensamento positivo, que ficava imediatamente proibido de entrar.
Já devia domar aqueles impetuosos sentimentos que a moviam. Sim, eram as paixões a sua força motriz. Não se negava a ceder ou fazer qualquer coisa em nome desse sentimento, que já, por muitas vezes, havia revelado que se esfumava rapidamente. Como plano B, ficava à espera que o amor chegasse. No fundo, no fundo eram racionalizações, daquele tipo que se ouvem muito “a paixão não dura para sempre, mas o amor sim” ou “o amor é um sentimento mais maduro, fruto da evolução da relação” ou ainda “esta é uma má fase que vai passar”.
Quando efectivamente os dias passavam e ela os começava a contar, como se tivesse encerrada numa prisão, aí sim, percebia que algo estava mal, muito mal. Nessas alturas, ficava apavorada e negava a si mesma que ia perder este laço, mas uma ubiquidade de sentimentos, lá começava, de forma muito tímida, a fazer o luto daquilo que tinha sido uma esplendorosa expectativa de uma relação bem sucedida.
Já não conseguia manejar os sintomas físicos, perfeitamente visíveis e a prova concreta de que havia um problema. Náuseas, problemas respiratórios, dores no peito apetrechavam o festim com a que a ansiedade a presenteava.
Para além de tudo isto, a sua neurose, que se insuflava quase até explodir, dava lugar a um certo “chicotear mental” secundário. Ora bem, quando já estava perfeitamente triste e desiludida, mimoseava-se com pensamentos como “Que estupidez dar tanta a importância a isto. Sou uma gaja perfeitamente estúpida e ridícula com estas lamechices, quando podia aproveitar para começar já a fazer o scouting do mercado masculino.” Não é necessário dizer que isto não a ajudava, e era produto daqueles óculos escuros e pequeninos que havia colocado. Em tempos quis ser tão grandiosa como a Janis Joplin, mas esqueceu-se que isso tinha consequências, e, sobretudo, que não podem existir duas Janis Joplin.
Acabava esta telenovela sempre com aquele pensamento/frase cliché “o amor não é p´ra mim”.
Na verdade, ela só queria mesmo passar a vida numa cabana, à beira mar, a beber mojitos. Mas isto dos amores e desamores trocava-lhe as voltas, e acabava sempre numa tasca abafada, a beber aguardente.
Moral da história?
Não há.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

z O O m

Encontram-se pessoas e episódios fantásticos no nosso percurso diário. Basta estar atento.
Hoje,dei por mim a despertar do meu automatismo habitual, a caminho do trabalho. O culpado foi um senhor, um tanto extravagante ou caricato(como preferirem), que envergava um rádio na sua bicicleta. Este rádio estava sintonizado na TSF, e emitia isto:



Digo-vos, foi o melhor momento do meu dia.

domingo, dezembro 05, 2010

Como gosto dela, numa tarde de Domingo

A lassidão é melhor arma contra a luz do dia. Primeiro acumula-se na loiça suja e depois acaba por traduzir-se em números, na medida das horas em que se fica rebolar na cama. Invade os horários, metodicamente estabelecidos no dia anterior, no desespero de organizar o vazio que percorre os dias em fileira. Entreabre-se no guarda-roupa apinhado de roupa por arrumar e desce as escadas com o lixo que alguém se foi esquecendo de levar.
A preguiça…torna-se facilmente num bichinho de estimação: alimenta-se, cuida-se e apelida-se carinhosamente com o nosso nome próprio. Enrosca-se entre as nossas pernas, rumo à alma.
Manifesta-se num colectivo individual, entre todos os que de manhã apanham o transporte público, carregando uma mala, de 100kg em cada braço, de preguiça a florescer. No final do dia, voltam a casa já com autênticos jardins botânicos, repletos de plantas carnívoras que lhe comem todo o corpo, razão de desabafos “triste vida a minha”, “nunca mais é 6ªf”, que todos em coro poderiam originar qualquer fado amargurado.
Dizem por aí que a mais perigosa das preguiças é aquela que é bem aconchegada por uma boa refeição, e desprovida de qualquer esboço de preocupações. Ora assim está criado o contexto para que se anulem todas as forças motrizes que impulsionam um qualquer a dedicar-se a causas mais nobres, das quais não faz parte a nossa preguiça. A preguiça é vil e sabe bem. Surge a dúvida se estas características têm alguma relação causal, mas não é isso que importa, e com certeza muito menos à detentora das mesmas, a nossa lânguida e confortável preguiça.

terça-feira, outubro 05, 2010

Os Viajantes e o Urso

Um dia dois viajantes deram de cara com um urso...
O primeiro salvou-se escalando uma árvore, mas o outro, sabendo que não ia conseguir vencer sozinho o urso, deitou-se no chão e fingiu-se de morto.
O urso aproximou-me dele e começou a cheirar a sua orelha. Mas, convencido de que estava morto, foi embora.
O amigo começou a descer da árvore e perguntou:
- O que é que o urso estava a sussurrar no teu ouvido?
- Ora, ele só me disse para pensar duas vezes antes de sair por aí com pessoas que abandonam os amigos na hora do perigo.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Fábulas

Eram duas da manhã e rebolavam naquele quarto escuro, à procura dos corpos que não conseguiam encontrar. Haviam prometido um ao outro amar-se para toda a eternidade, mas a eternidade é um pedaço de nada, e como tal um vazio que sempre o será.

O desejo de encontrar um amor genuíno e incorruptível era o mais importante, mais ainda do que o outro era na verdade, do que tinha este para oferecer. O pacto comum com o sentimento imortal era, de facto, o que interessava naquele momento.

Foi por isso que, embora deitados na mesma cama, não conseguiam tocar-se no rosto dos lençóis, que cegavam a cada suspiro. Antes de chegarem a esta intermitência, havia sido já percorrido um longo caminho, o qual atravessaram sem sequer se aperceberem, de tão ofuscados que estavam com promessas avulsas de amor eterno.

No culminar de cada relação falhada, cada um deles havia prometido a si próprio que haveria de ser feliz, mas…feliz de uma felicidade imaculada, que reparasse todos os danos anteriores e todos os que ainda viriam.

Quando se encontraram, gerou-se um cadinho de perfeição. Amar-se-iam até que a noite deixasse de o ser, e se transformasse em aurora para sempre. Amar-se-iam até que transformassem o outro no seu continente, no seu lar. Amar-se-iam até se perderem no brilho do olhar emanado pelo verdadeiro coração apaixonado.

Mas o tempo deixou de ser tempo, e o espaço transfigurou-se por casualidades e desajustes. Deixaram-se enrolar pela maré de acontecimentos, e não construíram um dique suficientemente forte para contê-la. A promessa de amor eterno assegurava, pensavam eles, que nunca deixariam de se amar, independentemente de todos os esquecimentos, todas as inconsciência e descuidos, intransigências ou distâncias que os pudessem apartar.

Enganaram-se. A promessa de amor eterno não chega. Não é uma varinha mágica que congela corações, e que os faz deixar de sentir qualquer tipo de raiva ou tristeza. E certamente não é antídoto para aquilo que se vai esquecendo de mudar, ou não se quer mudar com o pretexto do esquecimento.

É por isto que, quase uma hora depois, ambos adormeceram, ainda sem se encontrar.

segunda-feira, junho 07, 2010

...dó, ré, mi, fa, SOL...

clic: say cheese!



Saiu de casa apressada.
Não confirmou se tinha as chaves na carteira - gesto neurótico que lhe dá segurança nos passos do dia-a-dia.
A felicidade também não lhe passava pela segurança. Só quando implicava os momentos que incluíam "a sua cabeça no peito de um homem" - um qualquer que gostasse nessa noite.


*pic by Luis

quinta-feira, maio 27, 2010